Colcha de Retalhos

"O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa." Holderlin

Textos

CONFISSÕES DE UMA BARRIGA


CONFISSÕES DE UMA BARRIGA



CHORAR NA BARRIGA DA MÃE

Ver tudo correr à medida dos seus desejos.

Nasci em uma família de barrigas de grandes projeções. Desde cedo demonstrei que honraria a tradição. Era uma barriga lisa, redonda e empinada entre braços e pernas, merecedora do respeito de ser literalmente o centro das atenções.
- Barrigatintim... Minha meninice tinha nome de gente.
Minha mãe, dedicada como a maioria das mães, cuidou bem do meu umbiguinho. Deixou-o cair naturalmente quando tinha oito dias e meio, e enterrou-o embaixo de uma majestosa roseira como mandam os costumes. Dizem que quando praticamos algumas crendices nos aproximamos da felicidade.
Deixei o umbigo no mundo. A certeza de existir aduba a roseira... Pétalas e espinhos se fortalecem com a primeira raiz do corpo iniciante.
Passava longas horas debruçada no maternal ventre, enquanto mamãe contava os sonhos que havia traçado para minha vida. A possibilidade de criação havia se concretizado e sua barriga estava no mundo, projetava-se ainda numa pequena imagem. Umbigos no espelho, feixes de luz convergentes para o foco da natureza.
Entendo que a autoria muitas vezes sobe à cabeça, o autor pensa que pode controlar a interpretação da criação. Os sonhos são próprios de quem lê o mundo e não de quem escreve. Mas... Compreendo que a intenção de minha mãe era uma das melhores e que, centrada em ideais, ela conseguiu projetar a realização para além do próprio umbigo.
O cordão umbilical ainda nos une em realizações. A infância cicatrizou docemente como o umbigo, enterrada a primeira raiz saliente que ainda teima em sobressair em meu solo. Barriga no mundo, amadurecer foi aprender que as brincadeiras são conhecimentos e que encaixar os lúdicos jogos de montar é saber compor a construção das vivências.


CHORAR DE BARRIGA CHEIA

Queixar-se sem ter de quê.  

As brincadeiras representativas se interiorizaram. Comecei a sentir algumas sensações e não podia supor a intensidade. Incorporei também a culpa como essência. Era necessário senti-la para aproveitar os novos sentidos.
Ainda não defini por que me sentia tão culpada, mas era a sombra que refletia das projeções dos meus ancestrais ventres. Todos empinados com orgulho e certeza mas curvados diante dos erros, deprimia-se no centro a cicatriz. O começo centrado qualquer que fosse o percurso...
Criei minhas reações, protuberante ganhava espaço no mundo. Brinquei de me renovar, pintando com cores fortes minhas estações. Percebi que não estava completamente cicatrizada, ainda muito sangraria minha obscuridade íntima...
Embebia-me em ciclos. Voltas à lua e retornava à terra firme de minha barriga. Porto seguro, guarnecia-me para a próxima estação.
Intimidade... Comecei a fechar a porta do mundo. Queria ficar sozinha e me preencher com o próprio umbigo. Não ver o ventre materno ainda tentar assumir a autoria da história. Definitivamente não estava disposta a plagiar enredo algum, nem me perceber como umbigo e semelhança de alguém.
Busquei novos significados, quis crer na eminência da minha forma, perdi-me no desenvolvimento do conteúdo. Ocorriam mudanças que não conseguia dominar, percebia no corpo novas formas. O bojo se transformava e, ainda centrada, tentava me ocultar, vestia-me com as roupas do mundo para evitar a exposição excessiva.
Na eminência do amadurecer, seduzi o mundo e fui definitivamente seduzida pelas formas e cores diferentes. Descobri inúmeras envergaduras, até conseguir distinguir o cerne e compreender que muitas eram preenchidas de vento.
Muitas voaram como eu também voei... Muitas procuraram o que eu também procurei... Caminhei nos horizontes longínquos sempre ancorada na cicatriz do meu ventre. Viagem ao centro da gente...
Tantas idas... sempre retornei...
O umbigo está preso em quê? Se há um cordão de umbigo a umbigo, onde estará o começo do meu que só vejo a cicatriz?
Comecei a indagar tudo desde as raízes. Por que deveria entender o mundo pelo que me ensinavam?
Eis a grande revelação: o cerne de tudo é cicatriz, marca no corpo sem conteúdo. O umbigo, profunda depressão, é apenas um umbigo no mundo, uma mera representação.
Como entender o mundo pelas descobertas? Como viver sem nossas obscuridades?


EMPURRAR COM A BARRIGA

Adiar a solução de problema

As indagações tornaram-me refém das incertezas. Centrada no palco no papel da protagonista, incorporei todos os personagens escalados, fui até conformada e passei a me empurrar.
Essa postura alicerçada numa pseudo segurança sustentou-me no tempo até que pudesse me equilibrar sobre o novo centro. Ponto de mutação, novos cenários... Os umbigos se perdiam enterrados em suas finalidades enquanto meu eu tentava encontrar novas raízes.
Compreendi que não conseguiria solucionar os problemas do âmago. Perdia-me entre a alma e o corpo sem conseguir me situar. Tentei fingir que era indiferente ao novo cordão que se rompia. Não havia imagem no mundo que sombreasse minha trajetória. Era responsável pela definição do itinerário. Minha mãe percebeu a limitação de criadora e passou a ser apenas uma narradora das minhas conquistas.
Havia um certo exagero nos relatos, mas como toda mãe eminente, expunha ao mundo as peripécias do centro que o ventre gerou. Sucessivos centros de ventres projetados...
O mundo era maior do que meu umbigo, muito maior do que toda a minha saliência. Tentei resgatar os umbigos enterrados nas roseiras, até que percebi que os espinhos e as pétalas haviam se fortalecido e que nasciam novas cordas de confluências. Sustentava-se sob o eu saliente, as convergências maduras de uma nova visão do mundo. Percebi que deveria preencher a depressão do meu cerne para poder conquistar espaço no mundo.
As extremidades orbitavam no chão e no céu, distante do cerne perdiam-se em não-eus, fragmentos sombreados de existência. O concreto e o abstrato - imagens inconsciente. Ainda podia ver os pés do alto da minha barriga enquanto sustentava o peso dos novos pensamentos.
Precisava de tempo para viver todas as mudanças. Concedi-me momentos de dúvida e de prostração... Empurrei-me comigo mesma.


ESTAR COM A BARRIGA NO ESPINHAÇO

Estar esfomeado.

Descobri no mundo minha carência. Quando percebi que não era só umbigo, passei a desejar ser o centro alheio, invadir os íntimos, alimentar-me dos outros, preencher-me de vivências. Os outros me viam melhor do que o espelho. O reflexo do mundo avivava as cores com suaves sabores e cheiros. Alheios no mundo instigavam minha fome. Voraz, devorava-me em novos desejos.
Distrações e contrações, entregas levianas ao mundo... Distrações e contrações, algumas responsabilidades... Movimentos de entrega e arrependimento - fugas e arrependimentos... Sempre circulando o centro e retornando ao ponto de partida.
Princípios umbilicais...
Tentando me embarrigar com o mundo, enriqueci nas vivências dos outros. Apoiei-me em outros ventres e também servi de apoio para alguns. Não deixei de observar o próprio umbigo, apesar de ter o centro desequilibrado pelas paixões da juventude.
Fome de viver. Engrandecer o íntimo com o que é substancialmente essencial... Crescer nutrida de existência. Adquirir corpo, reproduzi-lo em ações, representar pensamentos. Adquirir movimentos uniformes para dar constância a um viver equilibrado.
Em tempos, enlouqueci centrada em mim... aprisionada no outro... Em outros, adormeci em busca dos sonhos. Preciso dormir para elaborar minhas vivências, retornar ao âmago, buscar no corpo as sensações. Mais umbigos e roseiras... O corpo e a alma se recompunham com a agilidade própria dos impulsos juvenis. Novas cicatrizes marcavam o centro – marcas no corpo sem profundidade, isentas de conteúdo, denunciavam o já vivido...
Lúcida, percebia os novos estigmas. Existiam em mim enquanto me emprenhava em suas cavidades. As grandes cavernas das lembranças.
Aprendi algo que jamais esqueceria: o único cordão que não posso romper é o que me liga as minhas vivências.


PEGAR BARRIGA

Ficar grávida.

Dispostas no mundo, as possibilidades estão presentes em cada encontro. Regadas a paixão quem pode se abster de um gole de possibilidade? Quem nega a sedução do calor e a segurança de uma saliência?
O ventre disposto, centrado na individualidade, está preparado para a concepção. Os instintos à flor da pele desejam o contato, o arrepio, a serenidade dos prazeres consumados...
Apropriar-se da presença nas noites enluaradas, sonhar o sonho dos apaixonados, deixar-se viver o desvelar do conhecimento, obscurecer a razão em busca da plenitude. Não basta ser centro, o desejo paira as extremidades...
Expomos o íntimo, desprotegemo-nos dos segredos. Na união dos corpos, uma única barriga, um ventre fértil projeta um novo centro...
O embrião, encasulado no útero, ganha na cavidade a protuberância de sua existência. A barriga da barriga... sucessão de umbigos numa família de barrigas de grandes projeções.
- Barriguda... O ventre feminino adota nome de mãe.
Nascitura barriga. O direito a um futuro se estabiliza no ventre.


CARREGAR UMA BARRIGA

Estar grávida.

A vida está completa e realizada. O ventre abastado ganha o mundo. Empina-se orgulhoso. Fértil é a origem da criação. Escrevo no corpo o começo. Sou autora do enredo...
Apropriei-me das vaidades maternas. Sou criadora e criatura, barriga plena, orgulho de comportar em mim a sucessão da existência, sucessivo centro do centro.
O umbigo retoma força. A depressão do meu cerne se exterioriza em busca do espaço. Novo sentido, original significado...
Tudo tão recente que até o pecado se interiorizou em minha protuberância... A satisfação  é grande e refuta a culpa. Indiferente ao mundo, retomo ao centro.
Engrandeço o íntimo, permaneço apaixonada por mim no repouso do prazer consumado.
Perco de vista as extremidades, não consigo ver os pés, não consigo pensar em nada que não esteja presente no ventre. Meus pensamentos são corporais e as lembranças estão marcadas por peles, músculos e sangues...
Movimentos infantis ondulam minha superfície, porto seguro guardo o mar do rebento. Cordão ancora o umbigo, alimenta a maternidade
Sou o centro de mim e do outro. Prometo jamais esquecer minha descoberta.

TER BARRIGA DE EMA

Não cumprir o prometido  

Nascimento. Pequeno ventre que não controla as emoções, descompassa respirações com achados. Tudo é novo para a barriga recém-nascida.
Noites em claro motivadas por obscuros choros. O que fazer com o íntimo que não se conhece? Nasceu com que tal bojo?
Os dias passam e a pequena barriga, sem o cordão vencido, já reconhece os seus, percebe os outros em pequenos sorrisos e retorna ao próprio umbigo. O ventre materno esvaziado sente pesar a gravidade, cintas destacam o presente desembrulhado. Não será mais o mesmo o corpo desvelado!
Ventre do ventre, passa a tradição da família – as esperadas projeções se concretizam. A barriga empinada ao vento parece comigo, arredondada e lisa, a pele de bebê realça a forma saliente.
Noites sem dormir, dias de dedicação absoluta. O pequeno é o centro das atenções, percebe apenas o próprio umbigo.
O ventre murcho reclama cuidado, abruptamente foi desocupado, perdeu a função e o desejo enquanto passa o tempo tentando escrever no barrigudinho o final feliz da própria história.
Compreende que pela primeira vez não está circulando no próprio umbigo. O centro do mundo foi expelido do corpo no momento do parto. Não me percebo como centro. Sou canto do mundo, espectador do íntimo.
Desonrei minha promessa, não me sinto como o cerne. Sou apenas uma barriga hospedeira que tenta valorizar o centro que amadurece sob o meu amparo.
Criatura ganha o mundo e projeta o próprio umbigo no caminho da humanidade.
- Será que não há exageros nessa afirmação de mãe?



ENCHER BARRIGA DE CORVO

Morrer (animal)

Barrigas se debruçam sobre o caixão. Tentam se despedir do ventre provecto que deixou o mundo. Dizem que foi de repente, acabaram de almoçar e, barrigas satisfeitas, foram dormir. No momento em que a tia despertou, a barriga ao lado, companheira de quarenta e sete anos, já estava descansando pela eternidade.
Vivemos tão centrados que não percebemos que a trajetória tem início e fim. Parece que estamos imunes à tal percepção, vivemos o meio da história, o eterno começar infinito. A morte é apenas uma sombra provável em que não pensamos muito. Uma projeção que não alcançamos.
Mas quando um ventre nosso está ali, prestes a ser enterrado, a morte está presente no luto com que vestimos o próprio umbigo, nas lágrimas que pranteamos pelas histórias vividas e o silêncio com que definimos o que não viveremos mais...
Fartadela, prosápia e barrigada... a morte talvez seja decorrente do efeito de se fartar. Louvados sejam os bem-fartados. Morrem os frutos de nossos desfrutes - nunca mais deleitar - a pança entregue aos olhares de despedidas confessa os excessos na traição do silêncio.
Trocam-se os pijamas, as listras pelo pinho, explodem as intimidades do ancestre morto na solidão de um ataúde - confissões que não se apregoam e nem se projetam. Queimam no fátuo existir...
O cortejo do enterro cumpriu o trajeto e o tio está enterrado sob algumas flores secas. Por que não ampliamos a tradição e nos enterramos embaixo de roseiras? Por que não servir da morte para fortalecer pétalas e espinhos?
Despedimo-nos com a promessa de nos encontrar mais, tentar unir a família... Boas intenções norteavam nossas palavras, mas, com o cordão rompido, o dia-a-dia faz com que cada um olhe para o próprio umbigo e os prováveis encontros familiares não passam de promessas feitas sobre os ventres estufados dos mortos, que se repetem a cada morto.
Barrigas e barrigudinhos ganharam o mundo... Umbigos, roseiras e enterros...



LEVAR BARRIGA

Divulgar (um jornal) notícia falsa.

Barrigudinho ainda esfregava o ventre no chão para caminhar quando percebi que o divulgado nos primeiros encontros amorosos não correspondia à realidade.
Existem barrigas que só percebem o próprio umbigo – protuberâncias narcisistas. A preocupação do barrigudo era preencher o ventre nos bares com amigos, contar vantagens e tentar novas conquistas. Eu e barrigudinho não éramos o principal motivo de suas atenções, acho até que ele se desinteressou por barrigas tão carentes e complicadas e buscou se distrair com o mundo.
O fim era inevitável, estava marcado no próprio centro. Um dia, sem grandes mágoas, despedimo-nos. Fomos em busca de realizações para nossas depressões, tentar compor as novas cicatrizes.
Barrigudinho sofreu um pouco com a separação, mas com o tempo essa ferida narcísea também cicatrizaria. Aprendemos a conviver com a perda dos umbigos.
Barrigudo apareceu algumas vezes, mas após um ano foi morar em outra cidade e desapareceu completamente. Recebi a notícia que havia morrido de tanto beber, afogara as entranhas em busca de um porto seguro. Literalmente, conseguiu se ancorar no inevitável - na segurança da certeza.
Como não sabia o que dizer para o barrigudinho, falei que ele estava enterrado sob a mesma roseira em que estava o seu umbiguinho.
Ele entendeu e nunca mais falamos nisso.



TIRAR A BARRIGA DA MISÉRIA

Gozar largamente de alguma coisa de que não desfrutara

Fui à roseira do primeiro umbigo. Para meu espanto, o canteiro do primeiro solo deu espaço para um grande complexo industrial.
Voltei para casa desnorteada. Como poderia retornar ao centro das representações, se já não havia umbigo e roseira? Escondi minha descoberta do ventre maternal.
Mães são muito sensíveis às desilusões. Talvez se despetalasse, talvez criasse espinhos...
Viagens ao redor do umbigo, perdidas na superficialidade de uma cicatriz. As tradições perdidas na complexidade da evolução da humanidade. Minha individualidade foi desenterrada para o avanço do progresso – geração de empregos, bens de consumo, capital... O que ganhei com isso? Será que perdi alguma coisa?
Passei a entender meu momento com mais realidade. Todo o passado já havia sido armazenado na lembrança, todos os umbigos enterrados em roseiras, algumas cicatrizes ainda marcavam o ventre... Por que não me perceber como um todo, sem ficar tão obcecada com o centro?
Barrigudinho estava na fase do próprio umbigo. O mundo tinha de obedecer aos seus caprichos. Suas vontades estavam resumidas em duas expressões: “eu quero” e “é meu”.
Ri-me com sua teimosia. Pela primeira vez percebi que minha vida estava liberta da depressão central. Eu podia e deveria ser mais, sem deixar de ser o que já havia conquistado.
Rompi os cordões com o nunca, dediquei-me ao desfrute e ao gozo. Ancorada em minhas vivências e com a percepção que adquiri do outro, aventurei-me em depressões alheias sem a fome da mocidade. Aprendi com o centro do barrigudinho a reconhecer e valorizar a essência sempre, aproveitando o que é presente e possível.
             Perpetuei o simbólico: na vida, precisamos ser umbigos, ventre e roseiras.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 01/03/2013
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