Colcha de Retalhos

"O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa." Holderlin

Textos


 
         Chego à estação com o sentimento de uma fugitiva. Antecipei a partida na véspera quando percebi que não encontraria as sombras dos meus personagens parisienses no Café de Flore. Todas as luzes de Paris se transformaram quando uma conhecida contou a história de um cílio artificial recém-adquirido com a pompa que exige a apresentação das futilidades. Num impulso, talvez brusco, livrei-me dos grilhões das pestanas plásticas e caminhei até o edifício onde Sartre tinha o seu escritório. As moscas. Entre quatro paredes. A náusea. Sursis. O ser e o nada. Suas obras se embaralhavam enquanto observava as janelas fechadas.  Compreendi o que ele quis dizer com “O inferno são os outros” e resolvi adiantar minha ida a Lyon, resgatando temporariamente meu purgatório em liberdade.
         Levo as malas que o corpo sustenta, deixando a bagagem que a alma não comporta. Em silêncio, despeço-me de Paris com a intenção do breve retorno. À bientôt.  Confio em minha memória seletiva e sei que em breve não guardarei mais está emoção vazia e destoante que originou minha fuga. Paris è Paris e não precisa de artifícios para encantar os olhos. Movimento livre. Sinto acariciar os trilhos ao perceber a pluralidade de paisagens que sucedem até a longínqua capital da Gália romana - Lungdunum. Em busca de raízes, chego à confluência dos rios Rhôme e Saône para sentir minha nostalgia genética. Busco os ecos dos passos dos meus ancestrais franceses com o desejo de intuir as sombras de suas trajetórias. 
        Gare Lyon-Part Dieu.
 
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 20/10/2011
Alterado em 20/10/2011
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