Colcha de Retalhos

"O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa." Holderlin

Textos

SALA DE ESPERA (PSIQUIATRA)
O que sou no outro? O que sou terá sentido se somente for percebido por mim? Será que o verdadeiro olhar não é o do senhor sentado a minha frente que me observa de forma dissimulada sobre a revista? Será que a verdade não aflora do desconhecimento e das impressões imaculadas de afinidades ou antipatias? O que sou nele? Será que o mesmo que sou em mim? O que sou no outro?

As inquietações surgiram de repente enquanto passava o tempo com uma revista de entretenimentos na sala de espera do terapeuta. Abandonei a leitura enquanto percorria as espirais da minha existência, mas mantive a publicação nos braços como um escudo para disfarçar a grande dúvida sombreada nas paredes da pequena sala. Concentrei-me no outro, no senhor sentado à frente com a revista em punho.

O que ele é em si, em mim, no mundo...?

Decifrá-lo seria uma quase resposta. Mas tive de abandonar minha incursão quando percebi que o meu olhar havia sido interceptado e que o senhor, visivelmente constrangido, cruzou as pernas e segurou com mais força a revista. Disfarcei.

Ele não é em mim. Não consigo perceber nada além de um homem de aproximadamente cinqüenta anos sentado na sala de espera de um psiquiatra. Rendo-me a dificuldade de colher minhas primeiras impressões. Estou maculada com as inquietações da minha existência. Mas ele... O que é? Ansioso? Deprimido? Louco? Talvez um caso perdido...

Oscilei diante da possibilidade de perigo. O outro... Novamente os olhares se cruzaram. Tracei um vôo improvável e alcancei o relógio como se estivesse preocupada com as horas. Pensei em hastear a bandeira branca e explicar ao desconhecido o porquê de estar ali. Insônia, ansiedade, trauma... Tudo começou com a depressão. Um momento difícil, o outro... Tarja preta. Mas não tomo mais antidepressivo. É verdade que de vez em quando ainda tomo um remedinho para dormir, o que restou... Insônia. Talvez um pouco de estresse, sei lá!

Não sou silenciosa ou louca, mas como poderia transpor o silêncio interposto pelo outro. Explicar-me talvez me libertasse do que não quero ser, mas... O que sou no desconhecido? Ansiosa? Estressada? Deprimida? Histérica?

A porta do consultório se abriu. Uma trégua. O senhor se levantou, cumprimentou o psiquiatra e saiu com a senhora. Um acompanhante. Mas ainda assim poderia ser ansioso ou deprimido. Ou um caso perdido... Quem sabe ele não é o verdadeiro motivo da ida da mulher ao terapeuta. Ele, o outro, o que foi em mim?

Era o horário da minha terapia. Vasculhei as angústias dos últimos dias e entrei. Ainda pensei em perguntar ao psiquiatra como eu existia em seu olhar, mas adiei a indagação diante da possibilidade de um diagnóstico.

Deixei minhas dúvidas junto à revista na sala de espera. Quem sabe na próxima sessão.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 10/02/2010
Alterado em 10/02/2010
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Helena Sut). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras